Mostrando postagens com marcador Giovani Vieira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Giovani Vieira. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Programete 49: Imprensa Alternativa – Lampião


No final da década de 70, a Ditadura Militar demonstrava os primeiros indícios de desgaste. Era o começo da abertura política. Estudantes tomavam as ruas para exigir a anistia dos presos e exilados políticos. Os setores oprimidos da sociedade fortaleciam sua organização. Os ideais da contracultura norte-americana e da revolução sexual ganhavam mais espaço na sociedade. 

Nesse contexto surge, em 1978, no eixo Rio-São Paulo, o jornal Lampião da Esquina. Ele tinha o objetivo de dar espaço à luta de minorias e centrou enfoque nos homossexuais. A ideia do periódico mensal surgiu por influência da revista norte-americana Gay Sunshine. Vários intelectuais e artístas reuniram-se para criar o periódico, destaca-se o conhecido escritor de novelas Aguinaldo Silva. 

A edição experimental, chamada de edição zero, saiu em abril de 1978 e declarava: 

“Lampião deixa bem claro o que vai orientar a sua luta: Nós nos empenharemos em desmoralizar esse conceito que alguns nos querem impor – que a nossa preferência sexual possa interferir negativamente em nossa atuação dentro do mundo que vivemos.” 

A visão do jornal era de que os homossexuais eram iguais aos outros cidadãos, nem inferiores nem superiores e deveriam assumir posições e lutar. Ouçamos dois trechos: 

“Informe-se, ache uma maneira de atuar no mundo em que vive, e deixe de ter pena de si mesmo. Se você não falar do seu problema, o seu problema não existe.” 

“Infelizmente, a sociedade machista é dona do mundo. E esta situação não sofrerá mudança enquanto não partirmos para ação. Há um trabalho difícil, árduo a ser realizado por todos.” 

O Lampião era caracterizado pelo sarcasmo, indignação e acidez na crítica à hipocrisia da sociedade e incitava a mobilização de seus leitores. O formato era de tabloide. Havia seção de cartas dos leitores, noticias e reportagens. A partir do número cinco, criaram a coluna “Bixórdia” que narrava situações cotidianas do contexto homossexual. 

Os temas eram polêmicos como “igreja e homossexualidade”, “casamento gay”, além de “assuntos eróticos”. O Lampião também trazia entrevistas e informações culturais, como dicas ou críticas de filmes, livros, shows e exposições. A produção era feita pelos conselheiros e por colaboradores que podiam variar a cada edição. 

Com o passar dos meses, o Lampião da Esquina foi mudando seu teor politizado e reivindicador, começou a ceder espaço para elementos mais comerciais, sua linguagem ficou mais apelativa e informal. 

Ensaios sensuais de homens nus passaram a ser comum no jornal, sendo que em sua primeira edição o editorial afirmava: “Quanto às fotos de rapazes nus, não é o nosso gênero”. As matérias passaram a ser cada vez mais relacionadas a temas eróticos. 

Bernardo Kucinski, em seu livro “Jornalistas e revolucionários”, afirmou: “Lampião da Esquina começou elegante e terminou pornográfico”. 

O jornal somou 38 edições e mais 3 extras, e chegou ao fim em junho 1981 gerando um vazio ideológico na defesa pelos direitos dos homossexuais. Lampião da Esquina não era o único com esse caráter, mas era o mais significativo, tinha uma distribuição nacional com média de 20 mil exemplares. 

Aos interessados: informamos que o centro de Documentação Professor Doutor Luiz Mott digitalizou todas as edições de Lampião da Esquina e as disponibilizou ao público no site www.grupodignidade.org.br.

Texto: Marina Fontanelli
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

Programete 48: Imprensa Alternativa – O Pasquim


Em junho de 1969, a ditadura militar governava com plena autoridade, vigoravam o AI-5 e a Lei de Segurança Nacional. Os jornais eram censurados e ameaçados, pessoas eram presas ilegalmente e mortas. Apesar do cenário adverso, um grupo de jornalistas cariocas resolveu criar um jornal livre, irreverente, divertido e alternativo à grande imprensa. 

O grupo era chamado de a patota. Ele não se considerava uma empresa, não havia editores na redação, não havia chefia, cada um escrevia como queria. Era uma forma não burocrática de organização. A primeira edição saiu no dia 26 de junho de 1969 com baixa tiragem. Naquele momento, participavam Tarso de Castro, Sérgio Cabral, Carlos Prósperi e Claudius Inicialmente, Jaguar havia imaginado o projeto como um jornal para o bairro de Ipanema do Rio de Janeiro. Porém, a visão crítica e inovadora passou a ser compartilhada por jovens de todo o país. Com quatro meses, a patota comemorava a tiragem de 100 mil exemplares e, em menos de um ano, o número de 225 mil exemplares. 

O sucesso era extraordinário. O Pasquim revolucionou a linguagem impressa, escrevia como se falava em Ipanema. A oralidade passou a ser marca registrada do jornal, palavrões eram permitidos e neologismos como “putsgrilla” e “sifú” foram incorporados no cotidiano dos leitores. O formato tablóide também era inovador para época. Nomes como Millôr Fernandes, Fortuna, Sérgio Augusto, Ziraldo, Henfil, Ivan Lessa, Paulo Francis, Luiz Carlos Maciel aderiram ao grupo, além de muitos outros colaboradores famosos como Moacyr Scliar, Chico Buarque, Glauber Rocha, Caetano Veloso e Gilberto Gil. 

O jornal trazia uma grande entrevista, na maioria das vezes, com personagens de oposição ao governo, músicos, artistas ou intelectuais; trazia também: os artigos corrosivos de Paulo Francis; as charges do rato Sig, criação de Jaguar em referência a Sigmund Freud; as tiras do chopnics, mistura dos beatniks com chopps. 

No início, O Pasquim não era um jornal propriamente político, era um jornal de deboche, de contestação, indignado com o conteúdo dos outros jornais. O Pasquim era alternativo à cultura de ordem e à cultura oficial de esquerda. Apresentava os novos valores da juventude, da contracultura e defendia a liberdade total do individuo. 

Apesar de ser considerado um símbolo da liberdade de expressão, outros periódicos alternativos o acusavam de machista e falsamente libertário na questão da homossexualidade, uma das razões da crítica era os frequentes deboches com feminismo. 

Em março de 1970, foi colocada uma bomba na sede do jornal, que felizmente não chegou a explodir. Os jornalistas entenderam como uma represália à entrevista com Leila Diniz que falou abertamente sobre sexualidade. Em junho, do mesmo ano foi instaurada a censura prévia. Os humoristas se utilizavam de divertidas estratégias para tentar driblar a censura. E em PRIMEIRO de novembro, os policiais do DOI-CODI invadiram a redação e prenderam quase todos os jornalistas presentes. E durante dois meses o jornal saiu devido ao trabalho de colaboradores. 

Até 1975, a censura prévia controlou e dificultou os trabalhos. Com isso, as vendas caíram e as dificuldades financeiras aumentaram. O modo anárquico de administração também trouxe atritos e prejuízos. Os membros foram lentamente deixando o jornal. Ficaram no controle Ziraldo e Jaguar até 1982. 

Nessa data, Ziraldo saiu. E no decorrer da década de 1980, a tiragem foi minguando sob domínio de Jaguar. Em 1988, ele vendeu o jornal que já não tinha expressão. Publicava apenas três mil exemplares. Foi uma morte lenta até o fechamento, no início da década de 90. O Pasquim ajudou a propagar uma mudança comportamental no país. Também inspirou outros jornais alternativos. Paulo Francis disse: “O jornal era uma brincadeira num tempo triste”. Os tempos mudaram e o jornal também.

Texto: Marina Fontanelli
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

Programete 47: Imprensa Alternativa – O Movimento


No dia 7 de julho de 1975, o BRASIL viu nascer o semanário O MOVIMENTO. Durante seis anos de existência, o jornal lutou contra a ditadura e assumiu, ao lado do OPINIÃO e do O PASQUIM, o papel de porta-voz do movimento democrático que se opunha ao regime militar. Posição que lhe garantiu um lugar entre os mais importantes veículos de comunicação da história da imprensa brasileira. 

O MOVIMENTO surgiu a partir do trabalho de um grupo de jornalistas que havia se desligado do jornal OPINIÃO após o afastamento de RAIMUNDO RODRIGUES PEREIRA de sua direção. Da antiga publicação, eles mantiveram a ideia de constituir um órgão de imprensa gerenciado de forma coletiva por seus profissionais, sem a existência de um patrão. Assim como a necessidade de afirmar uma forte e explícita posição política independente. Visava também ser acessível e lido pelo povo. 

O jornal buscou agregar diferentes segmentos da sociedade brasileira que lutavam contra a ditadura. Ele representava as vozes dos operários, dos camponeses, dos grupos de esquerda ilegais e clandestinos, da Igreja progressista e dos intelectuais críticos do sistema político. Suas páginas defendiam a formação de uma frente ampla e unida contra a ditadura. 

Dando um passo a mais em relação a outras publicações surgidas na época, o jornal apresentava matérias que não se intimidavam diante de seu compromisso editorial de defender a liberdade democrática, a redemocratização do país, o fim das leis de exceção, os interesses nacionais contra as forças estrangeiras, a instauração de uma Assembleia Constituinte e a anistia. Outro viés importante era “a luta pela melhoria das condições de vida dos trabalhadores”. 

Reunindo profissionais como RAIMUNDO PEREIRA e DUARTE BRASIL PACHECO na direção, a publicação trouxe uma nova cara para o jornalismo brasileiro. O periódico adotou um rigoroso processo de investigação e apuração jornalística, a independência econômica e política, e aliou talento e grande experiência de seus jornalistas. Com isso, ele influenciaria toda uma geração. 

O jornal enfrentou vários problemas: a censura prévia que reduzia e anulava os textos, baixa qualidade gráfica decorrente da rapidez na preparação, a leitura pesada por valorizar em demasia o conteúdo político, prejuízo financeiro constante, debates e disputas internas em torno de doutrinas políticas divergentes, posições partidárias sobrepondo-se ao jornalismo. Apesar dos problemas, o MOVIMENTO atuou num dos mais importantes momentos da história brasileira, até sua extinção em 1981. 

Enquanto o Brasil conquistava a reabertura política, o periódico colaborou com o alargamento dela, sofreu muito com a sua radical atuação e não resistiu. Mas sua mensagem já havia se eternizado e consolidado a história do jornal. No último número, ele ainda anunciava o princípio que vinha desde o início, ser “democrático e popular, independente e pluralista”.

Texto: Ana Carolina Costa
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

Programete 46: Imprensa Alternativa - OPINIÃO


O jornal OPINIÃO foi uma das mais influentes publicações da imprensa alternativa brasileira, nos anos 70. O financiamento veio de FERNANDO GASPARIAN. Empresário, e amigo de vários renomados intelectuais, Gasparian havia apoiado o governo de João Goulart e exilara-se na Inglaterra voluntariamente após o golpe de 1964. 

Semanal, OPINIÂO surgiu em outubro de 1972, num período em que a repressão do REGIME MILITAR se intensificava com a censura dos órgãos de imprensa do país. Seu objetivo era enfrentar esse cenário, oferecendo ao público um jornalismo crítico e analítico. Logo, consolidou-se como um marco de qualidade e inovação no jornalismo brasileiro. O sucesso deve-se a vários fatores, um deles foi ter na direção jornalista RAIMUNDO PEREIRA. O jornalista já havia trabalhado nas revistas Veja e Realidade, e no jornal Folha da Tarde. 

Por trás do periódico havia uma articulação entre o PC Do B e a AÇÃO POPULAR. O PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL acreditava na guerra popular como forma de derrubar o governo ditatorial. O movimento político de esquerda denominado AÇÃO CATÓLICA apostava na necessidade de se criar um jornal não-partidário para estimular uma frente de oposição ao regime. Ideias que se uniram em torno do OPINIÃO, convertido em porta-voz dessa luta. 

Temas a cerca da realidade brasileira dominavam o jornal através de reportagens, ensaios, comentários, charges, ilustrações ou fotografias. No conteúdo havia cobrança por uma melhor distribuição de renda no país, a defesa da economia nacional, dos direitos humanos e do meio ambiente, valorização dos trabalhadores na sociedade, debates sobre destinos possíveis da sociedade brasileira, reflexões sobre a cultura e a inserção do Brasil no mundo da época. Uma das maiores bandeiras da publicação era a defesa ampla das liberdades democráticas e o fim da ditadura. 

Com uma diagramação elegante, capas marcantes e um conteúdo altamente crítico e bem escrito, o OPINIÃO atraiu a colaboração de um considerável número de profissionais da grande imprensa nacional. Muitos deles mandavam textos gratuitamente, desde que publicassem sem identificação. Objetivo era poder participar daquela experiência ousada. O jornal também deu espaço aos intelectuais que perdiam prestígio diante das imposições da ditadura, por exemplo, Fernando Henrique Cardoso. Dentre os chargistas destacaram-se Elias Andreato, Chico e Paulo Caruso. Projetou novos profissionais como AGUINALDO SILVA e TÁRIK DE SOUZA. 

O OPINIÃO sofreu com a censura prévia, conviveu com divergência políticas internas e com problemas financeiros. Também havia discordâncias entre FERNANDO GASPARIAN e sua equipe em torno da melhor forma de administração e condução do periódico. Diante de tantos problemas, o OPINIÃO foi fechado em 1977, mas não tirou da publicação o posto de um dos primeiros e mais importantes jornais de crítica e combate à ditadura militar no BRASIL.

Texto: Ana Carolina Silva
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Programete 45: A censura e a imprensa no pós 64


Quando ocorreu o golpe de 1964, poucos jornais publicaram discordâncias ao evento. A grande imprensa apoiava o movimento civil-militar e era contra o governo João Goulart. Por isso, nos primeiros anos de ditadura, poucos veículos fizeram críticas aos militares. O jornal Correio Carioca foi o mais conhecido por criticar a ditadura no período de 1964 a 1967. O motivo dessa discordância não partia de ideologias políticas, dava-se em nome da liberdade de expressão e de publicação. 

Desde o início os militares criaram mecanismos de controle dos meios de comunicação. O objetivo era censurar a informação veiculada e evitar que circulassem posições críticas ou discordantes ao governo. A intenção era dar à população a sensação de unanimidade e tranqüilidade. 

Alguns autores dividem a censura em dois tipos, uma delas foi denominada de auto-censura. Nesse tipo, os policiais e os censores davam ordens por telefone, entregavam bilhetes orientando os assuntos, acontecimentos e nomes que não podiam ser publicados. Uma das regras era não citar a existência da censura. Os textos que mencionavam o controle eram impedidos de ser divulgados. 

A questão desse tipo de censura é que o controle do que ia ser publicado ficava à cargo das redações. Era o editor e o redator que fiscalizavam a produção e os textos evitando descumprir as normas. Os profissionais sofriam pressões de vários tipos: ameaças de agressão física e de prisão. Já o jornal podia perder seus anunciantes. O governo poderia cortar a publicidade oficial nos veículos. Muitas vezes, ameaçava os anunciantes privados. Uma empresa privada deixou de anunciar num jornal alternativo ao receber a promessa de obter financiamento do BNDS. 

Muitos jornais submetiam-se à regras censórias por medo e conveniência. Outros concordavam com o governo e suas políticas autoritárias. Aqueles que ousaram discordar sofreram forte censura. Os principais veículos censurados previamente foram: 

O Estado de S. Paulo, entre 1972 e 1975 e a revista Veja, entre 1974 e 1976; 

Os alternativos: O Pasquim, de 1970 a 1975, Opinião, de 1973 a 1977 e Movimento, de 1975 a 1978 e o jornal da Igreja Católica paulista denominado de O São Paulo, de 1973 a 1978. Esses veículos sofreram muitos desgastes. Todos os textos eram revisados pelos censores. Algumas matérias eram mutiladas e perdiam o sentido, outras eram vetadas, muitas precisavam ser rescritas. No Estado de S. Paulo, o censor ficava na redação e a tensão era contínua. Nos outros casos, o material pronto era enviado para a Polícia Federal. Até voltar, o trabalho ficava parado. Algumas vezes, o produto era enviado para Brasília e a resposta demorava dias. Esses procedimentos quase inviabilizavam o trabalho. Os jornais Opinião e o Movimento não resistiram e fecharam as portas. Apenas a partir do início dos anos 1980 o controle prévio da imprensa foi amenizado.

Texto: Célio J. Losnak
Apresentação: Jaqueline Casanova e Marina Fontanelli

Programete 44: A imprensa e o Golpe de 1964


O golpe de 1964 desencadeado pelas forças armadas não foi resultado apenas da ação dos militares. Diversos setores da sociedade civil participaram das conspirações contra o governo João Goulart. Desde 1961 já havia grupos organizados para fazer oposição com intenções de usar estratégias antidemocráticas e até ilegais. Grande parte da imprensa brasileira compartilhou do pensamento que o comunismo iria dominar o país e defendeu o golpe por considerar que estava ajudando a salvar a democracia. 

Um exemplo foi a atuação da Folha de S.Paulo. As notícias do ano de 1964 indicam o apoio do jornal à ação dos militares. No dia vinte de março foi noticiada a ocorrência da Marcha da Família ocorrida no centro de São Paulo. Ouça o primeiro parágrafo da matéria que tinha como título São Paulo parou ontem para defender o regime. 

A disposição de São Paulo e dos brasileiros de todos os recantos da pátria para defender a constituição e os princípios democráticos, dentro do mesmo espírito que ditou a revolução de 32, originou ontem o maior movimento cívico já observado em nosso Estado: “Marcha da Família com Deus, pela Liberdade”. 

Outro exemplo semelhante foi a atuação do jornal Estado de S.Paulo. Júlio de Mesquita Filho, o seu diretor, reunia-se com outros empresários, profissionais liberais, intelectuais e com militares para planejar o golpe. A atuação do empresário deu-se fora e dentro das redações. 

No dia Quatorze de março de 1964, o diário noticiou o comício de João Goulart ocorrido no dia anterior em frente à estação Central do Brasil no Rio de Janeiro. Um dos títulos dizia: Foi farto o material subversivo no comício. A matéria destacou a presença de trabalhadores, sindicalistas com faixas e cartazes defensores de propostas comunistas, nacionalistas e estatizantes. 

No dia vinte de março de 1964 o jornal estampou o título Enquanto há liberdade, embaixo havia imensa foto da Marcha da Família também noticiada pela Folha de São Paulo. A legenda da foto dizia: 

Meio milhão de paulistanos e de paulistas manifestaram ontem em São Paulo, no nome de Deus e em prol da Liberdade, seu repúdio ao comunismo e à ditadura e seu apego à Lei e à Democracia. Neste momento particular da vida do mundo, o histórico ato dos paulistas adquire importância internacional. 

No dia primeiro de abril o Estado de S.Paulo continha títulos defendendo e explicando as justificativas do golpe, um deles, afirmava: São Paulo e Minas Levantam-se pela lei, Era preciso assegurar a legalidade, diz Magalhães Pinto. Anos depois, a Folha mudaria o posicionamento apoiando movimento de oposição e de abertura. A partir de 1968, O Estadão resistiria à censura da imprensa feita pelos militares. Ambos tentaram apagar da memória social a responsabilidade de ter apoiado o golpe e rompido como os preceitos da democracia. Não podemos nos esquecer disso.

Texto: Célio J. Losnak
Apresentação: Jaqueline Casanova e Marina Fontanelli

Programete 43: A morte de Vargas e a Imprensa



O segundo governo de Getúlio Vargas sofreu intensa oposição dos setores mais conservadores da sociedade. Inclusive da grande imprensa. Ele foi eleito pelo voto direto com a proposta de ser representante das classes populares. Grupos ligados ao partido União Democrática Nacional, a UDN, organizaram-se para desestabilizar seu governo. 

As pressões para que o presidente renunciasse levaram Vargas ao suicídio em agosto de 1954. A população foi informada da morte pelo rádio. O REPÓRTER ESSO da RÁDIO NACIONAL noticiou em edição extraordinária e a comoção tomou conta da população. As outras estações de rádio também transmitiram informações da tragédia e divulgaram o conteúdo da Carta-testamento deixada pelo Presidente. 

No Rio de Janeiro, o jornal ÚLTIMA HORA, que apoiava a política do presidente, foi o primeiro a circular com a notícia em duas edições extras no mesmo dia. O jornal destacava a manchete: “O Presidente Cumpriu A Palavra! "Só Morto Sairei Do Catete!"”. 

O JORNAL DO BRASIL destacou o fato de maneira mais comedida: 
“Selou com o sacrifício de sua própria vida o drama com que vinha lutando nos últimos dias, deixando, conforme acreditava, "o legado de sua morte", para que se pudesse fazer ao morto uma parte da justiça que o povo reclamou” (...) 

O jornal O DIA declarou em suas páginas que “Vargas era um autêntico estadista, dotado de espírito público invulgar, com a cultura política necessária ao exercício da sua missão”. 

Os jornais O GLOBO e a TRIBUNA DA IMPRENSA eram tradicionais ferrenhos inimigos de Vargas. Entre 1950 e 1954, eles vinham fazendo intensa oposição ao presidente. Naquela manhã, suas sedes, na cidade do Rio de Janeiro, foram atacadas por populares, incluindo a RÁDIO GLOBO. A população também correu às bancas e destruiu exemplares dos jornais daquele dia. O GLOBO e a TRIBUNA DA IMPRENSA tiveram dificuldade para circular e foram protegidos pela polícia.

Texto: Giovani Vieira
Apresentação: Jaqueline Casanova e Marina Fontanelli

Programete 42: Vargas e os meios de Comunicação


Foram poucos os políticos brasileiros que souberam utilizar a imprensa como GETÚLIO VARGAS. O “pai dos pobres”, como ficou popularmente conhecido, tinha a seu serviço rádios, cinemas, jornais e revistas. Durante os quinze anos de seu primeiro governo, entre 1930 e 1945, o político gaúcho usou a comunicação para estar presente em todo o território nacional e divulgar o projeto de governo. 

Vários meios de comunicação, principalmente o rádio, foram mobilizados pelo governo para propagar uma onda de nacionalismo e populismo entre a classe trabalhadora. Notícias de VARGAS sempre estavam presentes no rádio. Os pronunciamentos eram reservados para datas especiais e enfatizavam o personalismo. 

Getúlio também soube usar as revistas e os jornais como instrumentos de propaganda política e de controle da informação, com o objetivo de fortalecer a sua imagem como homem do povo e estadista. No período do Estado Novo, entre 1937 e 1945, o ditador aparecia em vários impressos, praticando as mais diferentes atividades, tais como cavalgando, discursando ao lado de estudantes, distribuindo ferramentas agrícolas; em bailes; em peças de teatro, desfiles e festas cívicas. 

A revista Rumo ao Oeste foi um exemplo de meio utilizado para construir um novo papel para GETÚLIO: o de bandeirante. Nessa revista, Vargas apareceu como desbravador, um agente civilizador do sertão. A publicação mostrou uma viagem de Vargas ao Mato Grosso, momento em que visitou uma aldeia indígena. Na reportagem, ele aparece com os índios, conversando, dando presentes, almoçando no meio da selva e sobrevoando o Rio Araguaia. Imagens que reforçavam a ação do governante no Oeste a ser desbravado. 

A presença de Vargas na grande imprensa diária também era significativa. A Agência Nacional, pertencente ao DEPARTAMENTO DE IMPRENSA E PROPAGANDA, enviava para todos os jornais do país muitas matérias prontas. Os textos apresentavam ações do governo, suas políticas e elogios ao ditador. Tudo isso chegava a compor cerca de setenta por cento do material diário publicado por alguns jornais. 

Apesar do controle da informação e da violenta repressão política, o governo autoritário teve um fim. Em 1945, Vargas foi compelido a afastar-se do poder e o período ditatorial foi encerrado.

Texto: Giovani Vieira
Apresentação: Jaqueline Casanova e Marina Fontanelli

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Programete 41: Imprensa Operária IV


Os jornais operários do início do século XX eram diferentes dos jornais convencionais por vários motivos. Um desses motivos é que eles não funcionavam como uma empresa. Precisavam manter-se financeiramente, mas a arrecadação era apenas para sustentar a publicação e não para gerar lucro. Outro aspecto era que os redatores não iam atrás da notícia. Era a própria classe ou o sindicato e associação que buscavam o jornal para veicular informações e notícias. 

O principal objetivo desses jornais era a organização política dos operários. E um dos caminhos para isso era a formação doutrinária e intelectual. Como exemplo, em 1914, o jornal paulistano e anarquista A Lanterna anunciava que ele mesmo vendia livros para colaborar com a formação cultural e política dos leitores. Havia obras em português, italiano, espanhol e francês e vários escritos por autores anarquistas famosos. Ouçamos alguns exemplos de títulos: 

Almanaque do Livre Pensador, A Burguesia e o Proletariado, Catecismo Ateu, Programa Socialista Anarco-revolucionário e Entre Camponeses de Errico Malatesta. O Comunista Anárquico, de Pedro Kropótkine e La Educacion Sexual - Conferência pela professora Raquel Camada. 

Foi noticiado também um projeto de expansão de leitores para além da capital paulista. Na edição de treze de outubro de 1914 há uma nota informando que um representante do jornal irá percorrer cidades à beira da Companhia Paulista de Estradas de Ferro para acolher novos assinantes. As localidades citadas eram: Araras, Pirassununga, Descalvado, Santa Rita do Passa Quatros e Rio Claro. 

Essa estratégia visava expandir a causa anarquista e indicava que o movimento operário organizado podia existir no interior. O jornal anarquista La Battaglia noticiou, em dezoito de maio de 1912, sobre uma greve de colonos em Ribeiro Preto. O movimento realizado por setenta famílias e ocorrido em doze fazendas reivindicava aumento do pagamento do café colhido. Depois de oito dias de paralisação, os trabalhadores conseguiram o exigido. 

Além dos elogios o jornal destacou a estratégia de mobilização utilizada pelos grevistas. 

Desta vez não se adotou o sistema de cabeças ou chefes porque isso seria reduzir à miséria ou à perseguição alguns dos membros mais caros dessa união. Procedeu-se por grupos de quatro a cinco famílias de acordo com a amizade desses grupos, havendo não um chefe para esse grupo, mas sim apenas uma família encarregada para transmitir os pensamentos do diretório secreto que era quem resolvia todas as pendências. 

Apesar da mobilização o movimento anarquista perdeu força e tornou-se inexpressivo no decorrer das décadas de 1920 e 1930. Como conseqüência, a multiplicidade de jornais operários também foi reduzida no período. A imprensa como importante forma de expressão e de luta minguou no decorrer do século XX. 

Texto: Célio J. Losnak
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

Programete 40: Imprensa Operária III


Um importante jornal operário paulista do início do século XX foi A Lanterna. Fundado em março de 1901, ele teve como primeiro diretor Benjamin Mota, criador de outras publicações de esquerda como O Libertário e O Rebelde. 

Após a produção de sessenta números, o jornal “A lanterna” encontrou dificuldades e parou de circular em 1904. Esse problema era compartilhado pela maior parte da imprensa operária. Falta de verba para financiamento, riscos de prisão e confisco faziam parte do cotidiano dos redatores. Periodicidade irregular e vida curta ameaçavam as publicações que eram conduzidas por pequenos grupos. 

A Lanterna não circulou entre 1904 e 1909, quando voltou a ser publicada sob a direção do operário gráfico Edgard Leuenroth. Mais tarde, em 1916, aconteceu outra paralisação. As atividades foram reiniciadas por Edgard somente em 1933 com a publicação de mais 48 exemplares até 1935, quando encerrou as atividades. 

A Lanterna era em formato tabloide, com quatro páginas e as matérias eram distribuídas em seis colunas. Durante sua existência, a publicação passou por diversas transformações políticas, econômicas e sociais decorrentes do período políticos, da República Velha e do governo de Getúlio Vargas. 

O jornal era de linha política anarquista e de cunho anticlerical, ou seja, fazia campanha contra a Igreja Católica. Posição muito comum entre os anarquistas da época. O pensamento libertário considerava que a Igreja e o Estado eram dominadores da sociedade e principalmente dos trabalhadores. Por isso, o cabeçalho estampado no alto da primeira página constava: 

A Lanterna 
Anticlerical e de Combate 

Na primeira página da edição de três de outubro de 1914 podemos identificar um exemplo do anticlericalismo. O tipo de texto é inadequado para os tempos atuais, mas significativo para a época. O redator critica a explicação que o Papa Bento XV teria dado para o surgimento da 1º Grande Guerra Mundial. Ouçamos um trecho: 

“A primeira vez que a sacratíssima guela de Bento XV falou aos torpes da terra, tão grande asneira disse que bem melhor seria não se destapasse nunca. Afirmou bentinho que a causa fundamental da guerra europeia é a irreligiosidade dos povos europeus.... Ora...quem declarou guerra à Servia? A catolicíssima e religiosíssima Áustria”. 

A despeito de polêmicas, A Lanterna foi um bom exemplo da imprensa operária, que abria espaço para os grupos minoritários expressar opiniões contrárias às grandes instituições dominantes.

Texto: Beatriz Haga e Célio J. Losnak
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

Programete 39: Imprensa Operária II


Os tipógrafos foi uma categoria profissional que se destacou na História da Imprensa Operária Brasileira. Pela natureza do trabalho de impressão e composição dos textos nas gráficas, os tipógrafos eram alfabetizados. Como trabalhadores especializados, tinham boa remuneração, mantinham tradições de leitura e de mobilização política pelos seus direitos. Essa tendência já estava presente na Europa do século XVI, passando pela Inglaterra, França, depois Estados Unidos e Itália. 

No Brasil do início do século XX os linotipistas se consideravam a elite da classe operária. Em 1903, várias associações de gráficos paulistas reunidas formaram a União dos Trabalhadores Gráficos. O objetivo era a união de forças para a luta por mais direitos trabalhistas, por apoio dos necessitados e para atividades sociais e culturais. 

Em 1904, a União lançou um jornal porta-voz denominado O Trabalhador Gráfico. Nele publicavam notícias sobre atividades sociais e culturais da categoria, informações sobre novidades técnicas do trabalho gráfico e propaganda política para aumentar o número de associados e fortalecer as reivindicações. 

Na edição de 18 de junho de 1920 os redatores conclamavam: 

Precisamos intensificar a propaganda pela palavra, pelo livro, pelo jornal. Vamos, companheiros, auxiliai-nos a constituir o comitê de propaganda, que publique folhetos, livros, etc, organize conferências, não só técnicas e sociais, como também científicas e literárias. 

Na primeira fase o periódico foi mais combativo. Ele sofreu uma interrupção de publicação entre 1907 e 1919. Depois disso, continuou a circular até o final do século XX. 

Um dos colaboradores de destaque de O Trabalhador Gráfico no seu início foi Edgar Leuenroth. Edgar é considerado importante militante operário do século XX. Trabalho, política e comunicação eram indissociáveis para ele. De linotipista tornou-se jornalista defensor da causa operária. Dirigiu e produziu várias publicações tais como A Lanterna, A Plebe e Terra Livre. Atuou no Sindicato dos Gráficos e entidades de jornalistas. A preocupação com a imprensa o levou a produzir um arquivo que, depois de sua morte, foi doado à UNICAMP e originou o atual Arquivo Edgard Leuenroth. 

A partir do seu arquivo muitas pesquisas puderam ser feitas sobre o movimento operário brasileiro e uso da imprensa como meio da comunicação política.

Texto: Célio J. Losnak
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

Programete 38: Imptrensa Operária I


No início do século XX ocorreu o aumento da produção impressa no Brasil. A publicação de livros, revistas e jornais foi multiplicada com vários números de títulos com diversos perfis. A intensificação da vida urbana, do mercado capitalista, da alfabetização e o surgimento de diversos grupos sociais alimentaram a leitura de textos impressos em diversos setores da sociedade. 

Além da grande imprensa, outro destaque desse período foi a difusão da imprensa operária. Ela era expressão da História do trabalhador industrial e da chegada dos imigrantes no país. Os jornais estavam presentes em todas as regiões brasileiras. O Proletário, fundado em 1847 por um grupo de intelectuais do Recife, é apontado como o mais antigo da imprensa operária. O segundo título seria o Jornal dos Tipógrafos lançado no Rio de Janeiro em 1858. 

O maior número de publicações ocorreu na região sudeste, especialmente nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. A pesquisadora Maria Nazaré Ferreira encontrou 343 títulos de jornais operários publicados no Brasil entre 1870 e 1930. Desses 343, 149 foram lançados no Estado de São Paulo e 100 no Estado do Rio de Janeiro. 

Com a industrialização, São Paulo passou a ter muitos operários que utilizavam os jornais como meio de comunicação, de educação, de luta e organização política. Estamos falando de um período em que, depois da comunicação oral, a mídia impressa era a mais importante. Os jornais eram pautados pelo que acontecia no meio operário tais como problemas da classe, lutas e debates do movimento, notícias sobre associações culturais, críticas às autoridades e aos patrões, divulgação de doutrinas políticas. 

Uma característica dessa imprensa é que não era formada por jornalistas profissionais. Os redatores eram operários que se transformavam em jornalistas. Os proprietários dos veículos também eram trabalhadores/intelectuais, sindicatos ou associações de classe. 

Outra característica é que muitos títulos foram redigidos em outras línguas como o espanhol e o italiano. São Paulo abrigou um alto número de trabalhadores vindos da Itália e alguns com experiência na imprensa. 

Maria Nazaré Ferreira aponta que do total de 149 jornais operários paulistas impressos entre 1880 e 1930, 53 eram redigidos em língua estrangeira. Os exemplos dos títulos já indicam as tendências desses veículos com a intenção clara e assumida de divulgar a causa política: 

Avanti, La Battaglia, La Barricata, La Lotta Proletaria, Guerra Sociale, La Libertá, La Rebelión, El Grito del Pueblo. A característica cultural de utilizar outras línguas aponta para o caráter cosmopolita de São Paulo daquela época. O estado reunia e abrigava vários povos. E a imprensa era uma expressão dessa diversidade cultural.

Texto: Beatrriz Haga e Célio Losnak
Apresentação: Giovani Vieira e Jaqueline Casanova

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Programete 37: Euclides da Cunha – IV – Em Canudos


Euclides da Cunha atuou como corresponde da guerra de Canudos para o jornal O Estado de São Paulo no ano de MIL OITOCENTOS E NOVENTA E SETE. Ele relatou quase diariamente o que via e o que ouvia. Depois de TRINTA dias da saída de São Paulo, ele parte de Salvador para o sertão baiano. 

O caminho é longo, Euclides passa por algumas cidades e vilarejos: 

Alagoinhas, Queimadas, Tanquinho, Cansanção, Quirinquinquá e Monte Santo. 

Durante a viagem, o jornalista se fascina com a flora do lugar e cita os nomes das diversas espécies de plantas da região: 

cabeça-de-frade, umburanas, quixabas, juremas, macambiras, icó, mandacarus, cansanção, favela, entre outras. 

Há também informações sobre o conflito. No dia TRÊS de setembro, o repórter relata o encontro com alguns prisioneiros e evidencia o horror da guerra: 

O menor de todos, chama-se José. Assombra: traz à cabeça, descendo-lhe até os ombros, um boné de soldado. O boné largo e grande demais oscila a cada passo;...... a boca é uma chaga, foi atravessada por uma bala! 

No dia DEZ de setembro, Euclides chega ao centro do conflito, o arraial de Canudos. As reportagens se tornam verdadeiras narrativas de ação descrevendo a guerra que ali existia. 

Quando grande parte do Arraial já estava dominado, Euclides visitou as humildes casas e ficou chocado com tamanha miséria: 

…não se compreende a vida dentro dessas furnas escuras e sem ar, tendo como única abertura, às vezes, a porta estreita da entrada e cobertas por um teto maciço e impenetrável de argila sobre folhas de icó! 

A admiração de Euclides aos sertanejos estava presente em seu texto, sempre os caracteriza como fantásticos e bravos. E por sentimento de culpa ou de pena afirma em um trecho que o certo a fazer é incorporá-los: 

Sejamos justos- há alguma coisa de grande e solene nessa coragem estóica e incoercível, no heroísmo soberano e forte dos nossos rudes patrícios... 

A última reportagem é a narração do combate sangrento do dia PRIMEIRO de outubro. O exército perdeu generais importantes e o número de baixas era enorme. O repórter chega a comparar a visão do hospital com o inferno de Dante e descreve a situação mórbida do local: 

Sem espaço mais, dentro das amplas barracas, os feridos acumulavam-se, fora, no chão ensanguentado, sob o cáustico abrasado de um sol inclemente e fulgurante, atordoados pelos zumbidos agourentos e incômodos das moscas, fervilhando em número incalculável. 

A guerra chegou ao fim no dia CINCO de outubro, com a destruição completa do arraial e o degolamento de todos os prisioneiros. A República venceu, cometeu uma de suas maiores atrocidades da nossa história. 

Apesar do seu fervoroso posicionamento a favor da República, Euclides realizou uma enorme contribuição para o jornalismo brasileiro. Seu precioso diário de expedição também o inspirou posteriormente a escrever a grande obra brasileira Os sertões. 

Euclides da Cunha foi uma verdadeira testemunha ocular da História. 

Texto: Marina Fontanelle
Fonte: Giovani Vieira e Marina Fontanelli

Programete 36: Euclides da Cunha – III – A. Conselheiro e os Sertanejos


Em julho de MIL OITOCENTOS E NOVENTA E SETE a guerra de Canudos ainda se arrastava após três expedições militares, e a quarta expedição também não estava muito animadora. Foi então, que o próprio ministro da Guerra, o marechal Machado Bittencourt, decidiu ir até o local do conflito. 

É nessa oportunidade que Júlio de Mesquita resolve convidar seu repórter, Euclides da Cunha, para acompanhar as tropas do governo e atuar como um correspondente de guerra. No dia TRINTA DE JULHO, o jornal Estado de São Paulo anuncia a partida do correspondente para Canudos. 

Euclides chega a Salvador, onde vai permanecer por VINTE E QUATRO dias antes de ir ao centro do conflito e já começa a escrever para o jornal. Na capital baiana, o jornalista encontra um cenário caótico: chegam muitos soldados e prisioneiros feridos. A população comovida demonstra solidariedade à eles, considerados heróis da pátria. 

Conversando com os feridos, Euclides recebe informações da guerra e começa a ter real noção do que se passava. De acordo com os soldados, os sertanejos não pesam mais que uma criança, mas são ágeis e rápidos e cinco ou seis já conseguem perturbar um batalhão inteiro. 

Em alguns textos enviados Euclides inferioriza Antônio Conselheiro, e o chama de espécie de grande homem pelo avesso e usa os seguintes adjetivos: monstro, maníaco, criminoso, fanático, vulgar. E também o acusa de atrocidades. 

Euclides chega a dizer: 

Antônio Conselheiro não é nulo, é ainda menos, tem um valor negativo que aumenta segundo o valor absoluto da sua insânia formidável..... Não sabemos qual será a intenção desse homem tão ignorante e criminoso, armando batalhões e aliciando gente para a luta. 

Apesar do ódio ao Conselheiro, Euclides demonstra muita admiração pelos sertanejos, sempre elogiando sua coragem sobre-humana. Percebe que a miséria em que viviam era grande, mas também era imensa a valentia que eles apresentavam. Numa conversa com um prisioneiro sertanejo adolescente de nome Agostinho, o jornalista descobre que Antônio Conselheiro não fazia milagres como se pensava, e curioso pergunta ao jovem: 

- Mas o que promete afinal, ele aos que morrem? 

E o jovem responde: 

- Salvar a alma. 

E Euclides termina o artigo do dia DEZENOVE de agosto, mostrando seu encantamento: 

Estas revelações feitas diante de muitas testemunhas têm para mim um valor inestimável; não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão. 

Texto: Marina Fontanelli 
Apresentação: Giovani Vieira e Marina Fontanelli

Programete 35: Euclides da Cunha – II - “A Nossa Vendéia”


O trabalho de Euclides da Cunha como jornalista sempre foi incisivo na propagação da ideologia republicana. Um episódio importante para reforçar esse ideal foi a guerra de Canudos. 

O conflito começou no ano de MIL OITOCENTOS E NOVENTA E SEIS. Porém, a euforia se deu no ano seguinte quando chega, ao eixo Sul do país, a notícia da morte do capitão Moreira César que comandava a terceira expedição incumbida de acabar com o Arraial de Canudos organizado por Antônio Conselheiro. 

Na época, os rumores eram de que Canudos seria uma revolta monarquista e por esse motivo o governo e todos os intelectuais republicanos apoiavam a todo custo a destruição do Arraial. 

Em meio ao caos, Euclides da Cunha publicou dois artigos chamados “A Nossa Vendéia”, o título remete a uma cidade na França que foi considerada o reduto dos monarquistas na época da Revolução Francesa. 

No primeiro artigo, Euclides faz uma detalhada análise da geografia e da flora da região de Canudos com base em estudos, sem nunca ter ido até o local. E segue comparando o conflito brasileiro com o episódio francês afirmando que nos dois países existia o fanatismo religioso e ingênuo que era manipulado pelos monarquistas. 

No segundo artigo, o jornalista, que se utiliza sempre de linguagem rebuscada, tenta encontrar razões para o fracasso inicial do exército frente aqueles sertanejos. 

… as forças antagonistas irrompem inopinadamente de todas as quebradas, surgem de modo inesperado... das serras, nas orlas ou nas clareiras das matas e, fugindo sistematicamente à batalha decisiva, diferenciam e prolongam a luta, numa sucessão ininterrupta de combates rápidos e indecisos. 

Já nesses primeiros artigos Euclides se refere aos sertanejos com o termo jagunços. Ao mesmo tempo, o autor se mostra, desde o início, curioso com a bravura e o fanatismo desses homens e os descreve em certo trecho: 

O jagunço é uma tradução justalinear quase do iluminado da Idade Média. O mesmo desprendimento pela vida e a mesma indiferença pela morte dão-lhe o mesmo heroísmo mórbido e inconsciente de hipnotizado e impulsivo. 

Euclides é assumidamente republicano e apesar de considerar misteriosa e até mesmo admirar a figura do sertanejo, o jornalista, cegamente exaltado com o seu ideal, não consegue perceber o tamanho da atrocidade que está sendo cometida em Canudos. Ele acreditava que o exército defendia o progresso e, por isso, venceria destruindo o arcaico. 

Texto: Marina Fontanelli 
Apresentação: Giovani Vieira e Marina Fontanelli



Programete 34: Euclides da Cunha – I - Jornalista


O jornalismo no Brasil nos fins do século dezenove difundia explicitamente as ideologias da época. O conflito principal se dava entre aqueles que acreditavam na República e aqueles que ainda queriam a continuidade do regime monárquico. Nos jornais, os intelectuais publicavam artigos fervorosos defendendo suas opiniões. Dentre os articulistas mais famosos estava: Euclides da Cunha. 

Euclides Rodrigues Pimenta da Cunha nasceu em VINTE de janeiro de MIL OITOCENTOS E SESSENTA E SEIS na cidade de Cantagalo no Rio de Janeiro. Aos VINTE ANOS, começou a frequentar a Real Escola Militar. Escola que influenciou profundamente o gosto de Euclides pelos estudos e sua formação intelectual. Pouco tempo depois, ao lado de Benjamin Constant, já integrava o movimento republicano. Euclides torna-se conhecido publicamente após participar de um protesto contra a Monarquia. Decorrente desse destaque, ele é convidado por Júlio de Mesquita para escrever no jornal Província de São Paulo que anos depois ficaria conhecido como O Estado de São Paulo. 

Publica, então, seu primeiro artigo intitulado “Questões sociais – a Pátria e a Dinastia” no qual criticava a Monarquia pela decisão de deslocar tropas para o Norte do país para reprimir opositores ao imperador. Nas linhas finais do artigo Euclides revela seu estilo provocador. Ouça o trecho: 

Desiluda-se, pois, o governo; a evolução se opera na direção do futuro – e quer o governo queira, quer não, embora voltado para o passado, caminhará com ela, para a frente, mas como os covardes – recuando. 

O segundo artigo recebe o nome de “Revolucionários” e defende que a postura de um republicano brasileiro deveria ser a de um revolucionário para se contrapor ao governo tradicional. 

Mesmo com a proclamação da República a atuação política de Euclides é mantida. Ele continua a defender a República, mas muitas vezes critica o governo. Sempre expõe seu espírito inconformado e apesar de ser um republicano, não apoiou os excessos de alguns presidentes. 

Essa atuação de Euclides sempre foi feita pela pena, pela escrita publicada na imprensa do final do século XIX com o objetivo de conquistar consciências e maior liberdade para a sociedade. 

Texto: Marina Fontanelli
Locução: Giovani Vieira e Marina Fontanelli

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Programete 33: Os jornais de Bauru do pós-30


O Correio da Noroeste surgiu em 1931, um ano depois do empastelamento do Diário da Noroeste. O mesmo grupo abriu outro veículo como forma de manter a proposta jornalística na cidade. Era liderado por José Fernandes e Jorge de Castro e foi o principal jornal até os anos 1960. 

O Correio procurou ser o espaço de veiculação das transformações pelas quais Bauru e região passavam a partir dos anos 1930. Como o Diário da Noroeste, O Correio manteve a estratégia de ser um jornal regional. No decorrer da década de 1930 a imprensa das cidades à Oeste eram incipientes e isso facilitava a penetração do Correio em busca de leitores e anunciantes. Ele criou seções ou páginas para cidades ou regiões ferroviárias. Dessa maneira havia internamente as partes intituladas Correio de Lins, Correio da Sorocabana, Correio da Alta Paulista. 

Nessas partes era possível ler notícias sobre acontecimentos, problemas regionais que afligiam várias localidades, edições comemorativas de aniversário dessas cidades, e disputas futebolísticas entre os times da Sorocabana, da Paulista e da Noroeste. 

Na sua última fase, o Diário da Noroeste enfrentou o Diário de Bauru um concorrente em ascensão que havia surgido em 1946. Nos anos de 1960, o Diário da Noroeste não mais pertencia a proprietários locais e tinha uma expressão tímida, concentrava sua publicação em assuntos da cidade e tinha poucas páginas. Em 1968 ele foi fechado. 

Vários outros jornais surgiram e pereceram em Bauru. Destacamos aqui outro que teve vida longa nesse período entre 1930 e a década de 1960. A Folha do Povo. Ela surgiu em 1933 e em 1937 tornou-se diária. Nessa época foi dirigida por Paulino Raphael que articulou diversas campanhas na cidade como forma de divulgar o jornal e fazê-lo ser reconhecido pela sociedade. Como nos outros jornais da época, nele atuaram vários redatores que mais tarde tornaram-se famosos e também escritores, poetas e pessoas envolvidas com a área das artes. Alguns exemplos sâo: Correia das Neves, Helvécio de Barros, Celina Alves Neves, Jehovah de Oliveira e Nadyr Serra. 

A partir dos anos 1950, a Folha do Povo passou por vários donos. O último foi a família Toledo da Instituição Toledo de Ensino. 

Em 1968 o jornal encerrou suas atividades, pois já convivia com fortes concorrentes O Diário de Bauru e o Jornal da Cidade que produziam novas propostas de jornalismo e representavam novos grupos da sociedade. 

Texto: Célio José Losnak

Programete 32: Os primeiros diários de Bauru


O Correio de Bauru foi o primeiro jornal diário de Bauru, surgiu em 1916 e circulou até 1930. Nele trabalharam João Maringoni, Domiciano Silva, Carlos Fernandes de Paiva. Também teve a colaboração do poeta Rodrigues de Abreu. Manoel Ferreira Sandim foi o proprietário durante todo o tempo de existência. 

Não há estudos sobre o perfil editorial do jornal. O que se sabe é que Sandim fazia parte do Partido Republicano Paulista e esse vínculo levou à depredação das instalações do periódico em 1930. As forças partidárias do golpe de 30, a Aliança Liberal, e aliadas à Getúlio Vargas invadiram, quebraram e queimaram equipamentos e instalações. 

O Correio de Bauru não foi o único a ser destruído e ter suas atividades encerradas em outubro de 1930. O Diário da Noroeste, o segundo diário surgido na cidade, também sofreu a mesma violência. Ele foi lançado em agosto de 1925 com a proposta de ser independente dos partidos, profissionalizado com jornalistas defensores das causas públicas, com orçamento autônomo a partir da venda e de publicidade. 

Esse diário incorporou o nome da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil que tinha sede em Bauru. Ele inovou ao utilizar a ferrovia para circular pelas cidades à beira da linha. Enviava representantes em busca de assinantes e anunciantes. Para isso ele deu cobertura noticiosa regional. Cobria as cidades de Presidente Alves, Pirajuí, Lins, Penápolis, Araçatuba, Três Lagoas e Campo Grande. Também publicava editais da empresa Noroeste. 

Nessa linha de atuação o Diário da Noroeste buscava discutir problemas da região e outros específicos de algumas cidades. O jornal tentou ser um mediador entre as autoridades do governo estadual e os moradores da região. Um dos movimentos catalizados por ele foi a reivindicação de construção de um abrigo para leprosos que circulavam livres e abandonados por essa área do estado. E a campanha foi bem sucedida. Na primeira metade da década de 1930, começou a funcionar em Bauru o Asilo Aimorés. 

O Diário da Noroeste foi o primeiro diário da cidade a possuir características jornalísticas praticadas pela grande imprensa de São Paulo e Rio de Janeiro. 

Texto: Célio José Losnak
Apresentação: Jaqueline Casanova

Programete 31: Os jornais e a política em Bauru


Nem todos os jornais publicados em Bauru podem ser conhecidos. Vários deles não foram preservados em arquivos e desapareceram da memória. Alguns pioneiros do século XX estiveram intimamente ligados à política, estavam à serviço do Partido Republicano Paulista. 

O primeiro deles foi o semanário A Cidade de Bauru criado pelo PRP em 1909 para dar sustentação política ao partido. Era dirigido pelo coronel Nelson Noronha de Gustavo. Em 1910, o jornal apoiou a mobilização para instalação da sede da Comarca na cidade. Depois da vitória, teve a sua circulação interrompida por alguns anos. Passou a ser publicado novamente em 1913, mas nesse mesmo ano foi fechado. Uma explicação para isso seria o fato do Coronel Noronha ter saído de Bauru. 

Em fevereiro de 1914 foi criado o seu substituto A Gazeta de Bauru. Abaixo do título vinha estampado Orgão do Partido Republicano. O jornal não escondia que defendia as propostas do PRP e deixou isso claro no editorial presente na edição de número um. 

“O Nosso programa é, em síntese, o mesmo que preside a imprensa voltada à causa do interesse e do bem estar público, e, a nossa orientação será, como até aqui pautada nos mesmos princípios do Partido, que tem seus ideais firmados nos mais elevados princípios do civismo.” 

Apesar eloquência, a vida da A Gazeta de Bauru foi mais curta do que A Cidade de Bauru. Por razões desconhecidas, ela fechou as portas em setembro de 1914, oito meses depois de inaugurada. 

Há indícios de que outro veículo veio substituí-lo. Em fevereiro de 1915 foi lançado O Comercio de Bauru. O diretor era o jovem advogado Otávio Pinheiro Brisola que depois seria prefeito da cidade. O lema do jornal enfatizava a defesa dos interesses do comércio e da lavoura No número de lançamento afirmava ser independente defendendo os interesses de todos, inclusive do povo. Tudo indica que o semanário não tinha tanta independência como afirmava, pois o proprietário era Eduardo Vergueiro de Lorena, fazendeiro de café, rico e político em ascensão no PRP. Ou seja, O Comércio de Bauru era mais um periódico ligado ao poder em vigência. Com certo fôlego, o jornal circulou até 1920. 

O semanário O Tempo estaria na oposição de todos esses periódicos e contra os políticos pertencentes ao PRP. Sabe-se pouco sobre ele, foi lançado em maio de 1910 e circulou pelo menos até 1922. A contradição do seu discurso é que o proprietário era Carlos Marques da Silva um ex-prefeito e ex-vereador de Bauru. 

Os exemplos mostrados até aqui indicam a proliferação da imprensa no início do século XX em Bauru. E indicam também uma fase da história em que a independência dos jornais era mais uma estratégia discursiva do que realidade. 

Texto: Célio José Losnak
Apresentação: Jacqueline Casanova

Programete 30: Início da Imprensa em Bauru


Muitos jornais surgiram em Bauru nas primeiras décadas do século XX. Vários deles tiveram vida curta, poucos permaneceram por longo tempo. Tudo indica que a dificuldade de financiamento era o maior desafio para a sobrevida das publicações dessa época. 

O primeiro a circular foi “O Progresso de Bauru” provavelmente entre maio de 1905 e fevereiro de 1906. Sabe-se muito pouco sobre ele porque não existe nenhum exemplar preservado. 

Em dezembro de 1906 o político Domiciano Silva criou o ”O Bauru”. No início o periódico apoiava o grupo político de seu criador e tinha um perfil claramente conservador. Dois anos depois, em outubro de 1908, ele passou a ser dirigido por Almerindo Cardarelli que se manteve até o fim. Para o período, O Bauru foi um jornal de vida longa. Ele teria existido até 1924. 

Nos primeiros anos, era semanal e com quatro páginas, sendo a duas últimas compostas quase inteiramente por propagandas. Uma característica comum para os jornais interioranos da época. As duas primeiras continham poemas, folhetins, que eram literatura publicada em capítulos, textos sobre filosofia e doutrinas políticas, notícias sobre a política local e nacional. Havia também notas policiais e notas sobre fatos cotidianos da cidade, tais como eventos sociais e cenas da vida urbana. As visitas à Bauru de pessoas consideradas ilustres eram noticiadas sempre. 

Nos primeiros anos, Cardarelli imprimiu um tom popular ao jornal, anunciando comemorações de 1° de Maio, escrevendo sobre a importância da data do proletariado, noticiando reuniões de operários socialistas, denunciando regularmente as péssimas condições de trabalho dos funcionários da ferrovia Noroeste. Em 1910, posicionou-se partidário de Rui Barbosa e defendeu o civilismo, posição contrária ao grupo que dominava o Partido Republicano no país. Também fez oposição ao prefeito e à Câmara dos Vereadores da época. A partir de 1912, esse perfil militante começou a ser diluído e as polêmicas foram desaparecendo: O Bauru tounou-se um jornal mais comedido e sem oposição aos poderosos. 

Apesar disso não era um jornal de partido e garantiu relativa independência em relação à política partidária.

Texto: Célio Losnak
Apresentação: Jaqueline Casonava